28/05/2013

No dia 23 de maio, três turmas do Rainha reuniram-se a uma hora de aulas comum para debaterem a pluralidade e a capacidade comunicativa nas redes sociais.

A ideia não foi inocente: pegámos no texto da Inês, “Redes Antissociais II”, como base para esta mesa-redonda.

8º, 10º e 12º conviveram na mesma mesa e estiveram ao mesmo nível ao discutir este assunto, atual mas obscuro.

Importa manter cada cidadão, animal racional, a pensar nas realidades em que está implicado, que pode alterar e que o podem alterar. As redes sociais foram um bom pontapé de saída pois, auscultando estas três turmas, apenas 1 aluno em 70 não possuía uma conta em qualquer tipo de rede social… Toca-os a todos, toca-nos a todos.

Continuaremos a promover mais debates com base nas linhas temáticas deste blogue, até ao finalizar deste período, até sairmos do Rainha para enveredar por novos caminhos. Esperemos deixar uma centelha de curiosidade, algum espírito cívico no Rainha – sejamos nós a mudar este mundo, com quem implicamos tantas vezes…

Agradecimentos

A Equipa 2

considera indispensável, ainda que não tivéssemos vencido o concurso, a todos os que colaboraram neste projeto, longo e trabalho:

a Stephen Reckert pela sua história de vida, percursos múltiplos. Por ser símbolo de duas e mais culturas, por ter sido a nossa inspiração;

a Dídia Marques pela disponibilidade e partilha;

à Prof. Filipa Barreto por nos ter proposto este projeto. Por ter persistido na ideia do trabalho final;

às Prof. Isabel Torcato, Rita Mendes Pinto e Isabel Rodrigues por nos terem dado opiniões, facultado filmes (“Crash”, “Fantasia Lusitana” e “Gandhi”), sugerido leituras (“Como se tornar um doente mental”) e ensinado conceitos de forma correta;

à Prof. Isabel Le Gué pelo entusiasmo que espalhou na escola;

ao Prof. Juan Nolasco e à Prof. Margarida Rosa pelo trabalho infinito que realizaram;

aos professores da biblioteca do Rainha por lá nos terem calado tantas vezes, tal era a exaltação das conversas que geraram este blogue;

a James Michael Rogerson e a Mª Rita de Castro Costa Guimarães por terem dado o seu testemunho de dupla cidadania;

à Irmã Marta Silva, a Ludwig Kriphal e ao Rabino Eliezer Shai Di Martino por terem dado a sua palavra relativamente à liberdade religiosa;

à avó, mãe e irmã da Carolina Torres (Mª Margarida, Mª Cristina e Leonor, respetivamente) por se terem deixado entrevistar a propósito

ao João Motta Guedes pelo grande apoio prestado aquando da fotorreportagem do Martim Moniz;

ao Nuno Fernandez Thomaz por ter trabalho connosco a questão do Hindutva;

a todos os alunos entrevistados sobre as câmaras de vigilância

à atual turma do 9º 5ª do Rainha por tanto ter debatido temáticas aqui desenvolvidas (temos uma nova geração pensante!)

e por fim à FLAD pela simples proposta deste trabalho.

Falamos da parte continental da equipa, pelo que certamente nos esqueçamos de tanta gente que acompanhou de perto este projeto. Sintamo-nos porém todos parabenizados: não deixámos de crer nos valores que foram o fundamento deste projeto – a interculturalidade, a liberdade religiosa e de expressão, a democracia – que sustentam esta nossa sociedade tão plural. Um dia ela será plenamente livre e segura, se continuarmos empenhados na construção deste tipo de projetos; no dia em que todos os cidadãos tiverem de pensar, pelo menos duas vezes à semana, em temas como estes…

28/03/2013

Tetrálogo

O espaço é o que sempre foi, Lisboa, Portugal. Pela primeira vez, fora da biblioteca da escola. Os dias são mais livres, estamos de férias e decidimos reunir em casa da Carolina, de olhos posto no rio, no calmo céu e no casario lisboeta. Hoje estamos todos, a equipa continental, num diálogo que se torna num tetrálogo por ser dos quatro, da Inês, da Carolina, do Pedro e da Filipa. Vosso também.

- Por onde começar? O caminho já é distante… Quando é que foi o primeiro dia, lembras-te?

- O primeiro dia, terá sido quando decidimos embarcar neste projeto, terá sido quando fomos escolhidos como concorrentes, ou quando escrevemos a primeira linha do primeiro texto que encetou o blogue e ao qual se seguiram tantos outros textos, tantas outras ideias…

- Como isto é circular e engraçado… Começou com uma conversa e com uma conversa acaba, mas esta conversa não é o fim!

- Pois não, o caminho não acaba com um ponto final no blogue. Há ainda um longo trabalho pela frente, mas já lá vamos.

- Vamos voltar ao princípio, à base de tudo isto.

- Foi o compromisso, sempre e acima de tudo.

- Todas as reuniões na biblioteca às quintas-feiras de manhã, um esquema com possíveis sumários e temas semana a semana. O desenho de um projeto. Ainda tenho essas folhas! Aqueles rabiscos que sustentaram os dois posts por semana, que se foram desdobrando em três, em quatro… era o compromisso!

- Tenho aqui as folhas! Dois de dezembro!

- Já passaram tantas semanas, tantos textos. Nem todos estavam nessas folhas. Alguns ficaram por escrever. Outros foram aparecendo, com a liberdade de um tema que nos orientou, sem nos condicionar completamente.

- Acho que temos razões para ficarmos orgulhosos!

- Mas tive pena de não falarmos das corridas de toiros…

- Ou das famílias tradicionais, aquela ideia que tivemos desde o princípio.

- Ou do John Locke.

- As pesquisas foram feitas, mas não era possível fazer tudo.

- Foi essencial a capacidade de nos adaptarmos à atualidade, às questões que foram surgindo. Ter a liberdade de mudar o guião.

- Com segurança. Saber mudar com firmeza.

- Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

- Gostei tanto da nossa rubrica dos luso-americanos. Tão interessante que foi descobrir os portugueses da diáspora!

- Eu nem tanto. Preferi as sugestões diárias. Levaram o tema do projeto para o meu quotidiano. Notícias, jornais, filmes… Conversas. Onde quer que surgissem estas três palavras a realidade parecia-me mais próxima. De facto é um assunto que marca a atualidade. Vimo-lo em todos estes sítios e mais.

- Definições que encontrámos no dicionário e em enciclopédias. Os filmes que vimos.

- Os monumentos por que passámos.

- As pessoas que entrevistámos. Aquela conversa com a Dídia…

- Os lugares que visitámos, que revisitámos! Foi mesmo giro fazer os vídeos. Os nossos “bairros”. Ou o Chiado.

- A música que ouvimos – ainda bem que existe o youtube! Tudo isto foi construindo o blogue e a nossa própria leitura do tema.

- Leitura em português.

- Sim, o mais importante foi valorizarmos a nossa língua. O nosso património-língua. A nossa pátria é a língua portuguesa.

- De todos os que a falam e a conhecem. Foi isto que uniu a nossa equipa, dos dois lados do Atlântico, um Mar Português. Agora de palavras.

- As palavras que partilhámos.

- E que pena não ter sido uma partilha maior!

- O que é realmente importante é a comunicação.

- E essa comunicação continua a ser essencial agora na reta final deste projeto.

- Pois é. O trabalho final já está em marcha. E há bastante tempo, contando que é um seguimento de todo o trabalho diário.

- É uma síntese. O trabalho levará mais além as questões-protagonistas dos textos que conhecem bem.

- Damos-lhes pistas?

- Já demos várias…

- Mas ainda podemos dar mais algumas…

- … falar da importância das entrevistas, das personalidades…

- É melhor deixar em aberto, lá chegaremos.

- Há mar e mar, há ir e voltar

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Reflexões finais sobre Liberdade e Segurança

Carolina, Inês, Pedro

Agora que deixamos os nossos últimos posts, seria errado ignorar o que dizem os nossos mestres da literatura sobre o tema do blogue. Camões e Pessoa: falámo-vos deles ao começar este projeto. Aqui estão eles para dar a sua palavra sobre Liberdade e Segurança. Sobre Pluralidade… achámos interessante fazer uma leitura das Farpas de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, os maiores realistas portugueses, visto que a sua obra é a crítica social. Contudo, sugerimos uma leitura integral – afinal de contas, a nossa Literatura é a pluralidade!

SEGURANÇA, por Luíz Vaz de Camões

Ó grandes e gravíssimos perigos!
Ó caminho de vida nunca certo:
Que aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!

No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

Estâncias 105 e 106 do Canto I d’Os Lusíadas

LIBERDADE, por Bernardo Soares (Fernando António Nogueira Pessoa)

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.

Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.

A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.

Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.

Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de excelsis.

Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.

em Livro do Desassossego Vol II

Lisboa: Ática, 1982.  - p. 456

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Avenidas Novas do Pedro

Pedro

Para começar, agora no fim, um poema enigmático, que nos sugere o touro, que nos sugere a dúvida e uma vida inesgotável:

E de novo, Lisboa, te remancho, 
numa deriva de quem tudo olha 
de viés: esvaído, o boi no gancho, 
ou o outro vermelho que te molha. 

Sangue na serradura ou na calçada, 
que mais faz se é de homem ou de boi? 
O sangue é sempre uma papoila errada, 
cerceado do coração que foi. 

Groselha, na esplanada, bebe a velha, 
e um cartaz, da parede, nos convida 
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha: 
dizem que o sangue é vida; mas que vida? 

Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui, 
na terra onde nasceste e eu nasci?

Alexandre O’Neill, in De Ombro na Ombreira

 

Não podíamos deixar este blogue sem publicar o último dos vídeos das “nossas Lisboas”. (Quem não me conhece, eu chego sempre atrasado a todo o lado e aqui têm o meu vídeo… em atraso). Cheio de bloopers, cru, sem música, foi assim que o quis editar, juntando o útil ao agradável, i.e., tampouco teria mais tempo para o editar mas é mesmo assim que o prefiro publicar. A Inês foi de comboio, a Carolina de elétrico, eu fui de metro! Estamos no centro de negócios da cidade, mas as Avenidas Novas (Saldanha, Campo Pequeno) não são apenas uma zona de escritórios. Há aqui um importante centro cultural – a Fundação Calouste Gulbenkian – com os seus sossegados e harmoniosos jardins; uma igreja modernista   – Nossa Senhora de Fátima – e uma ilustre arena da tauromaquia (tema polémico…) – a Praça de Touros do Campo Pequeno. Já que cheguei atrasado, ao menos vou-vos mostrar tudo com calma… Venham inspirar as largas e buliçosas Avenidas Novas, onde vivo, onde me movimento.

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Lapa da Carolina

Carolina

Da Lapa e da sua pluralidade (perdoem a extensão do texto que se segue):

“E quer-me enfim parecer que o bairro da Lapa, de entre os lisboetas bairros ribeirinhos, é aquele que mais singularmente articula um mediterrânico estilo de vida com padrões de relacionamento já continentalmente europeus e, por outro lado, com largos horizontes que um pouco mais perto respira através do Atlântico. Em Alfama ou na Madragoa, tudo tem quase exclusivamente a ver, em termos de ritmo vital e de sociabilidade “aberta”, com bairros de Marselha, Génova, Nápoles, Bari, Nauplia, Atenas ou até Istambul. A Lapa, em contrapartida, dir-se-ia que se encontra um pouco arredada desse luminoso aro mediterrâneo, quase levantino, e como que já a meio caminha entre Roma e Nova Iorque, Londres e Rio de Janeiro, Paris e Toronto.

Para esta impressão (ou ilusão?) decerto que muito contribui a extrema densidade, que aí se verifica, de representantes do corpo diplomático, população flutuante que incessante se renova e se reveza, de tal modo que lhe confere – paredes-meias com o popular, o burguês e o aristocrático de cepa indígena – uma contínua coloração cosmopolita: a Europa do Norte e a América Latina, a Europa do Leste e hoje também a Ásia por ali assentam seus arraiais de fortuna, assim deslocando a Lapa da órbita mediterrânea em que predominantemente se integram as suas irmãs Alcântara, Madragoa, Alfama, Castelo e mesmo o que resta da Mouraria. Eis mais um traço que indiscutivelmente a singulariza, sem que dele possa contudo extrair qualquer acintoso motivo de orgulho.

Nem isto aliás poderia coadunar-se com a índole da Lapa, bairro de sóbria civilidade e de urbano convívio, avesso a despiques ou picuinhas de precedências – e, por tais razões, talvez o menos bairrista, em semelhante acepção, de entre todos os bairros de Lisboa carregados de Historia. Portuguesíssimo na sua essência, «alfacinha» assumido mas discreto, guardando as necessárias distâncias em relação às manifestações de um folclore meramente exterior, o bairro da Lapa, sem deixar os créditos da sua individualidade por mãos alheias, não menos salvaguarda, com tolerante firmeza, a sua congénita vocação universalista. E assim constitui, também sobe este aspecto, um nobilíssimo exemplo.”

David Mourão-Ferreira

Com alguns meses de atraso… Sigam-me nesta viagem pelo meu bairro, a Lapa. Era domingo. O jardim da Estrela estava povoado por famílias sem pressas ou obrigações. Estava vento… E passámos pela badalada Assembleia da República. Um pedaço sui generis da capital.

Mais sobre este bairro no site da freguesia (donde retirámos o texto de Mourão-Ferreira).

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“Terra Firme” de Miguel Torga

Carolina

UM ÚLTIMO LIVRO, UMA ÚLTIMA SUGESTÃO, UMA ÚLTIMA INSPIRAÇÃO

Capa de uma antiga edição de Terra Firme

Neste drama, Miguel Torga trata um tema que volta agora a estar na ordem do dia, a emigração, as suas implicações na dinâmica familiar, a esperança e a saudade dos que ficam, o sonho e o medo dos que vão.

Terra Firme. Confrontados com este título podemos seguir por várias direcções, pelos vários significados que engloba a expressão Terra Firme.

Terra Firme é a terra que se mantém, que fica com o passar das gerações. Porque as pessoas passam, mas a Terra permanece.

Terra Firme é terra, a terra natal, a terra que acolhe, o berço de Guilhermina, António, Madalena e Joaquim, o berço de todos os que ficaram mas também dos que partiram para lá do ninho.

É em terra firme que se espera o regresso eterno, na eterna espera, no eterno desespero. É nessa terra que a vida toma forma e é para essa terra que são transportadas todas as emoções, o que se sente e se diz, o que se sente e se esconde.

Miguel Torga viu sempre na Terra a sua fonte de escrita, porque terra é fonte de vida. Comporta todos os sonhos, todos os momentos, todas as vidas daquelas gentes, das que foram, das que ficaram.

É por isso que a terra é eterna, o que ela comporta é intemporal e imortal, a sua função será sempre receber aqueles que a vêm pisar. Porque a terra ficará para sempre à espera, mesmo dos que nunca chegam. Para sempre firme.

Encenação experimental no teatro de Chaves

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19/03/2013

Xeno Phobos: germanofobia

Pedro

Hoje vamos falar de GERMANOFOBIA

Palavra inventada pelos jornalistas, a germanofobia é toda a aversão e agressão para com o povo alemão. De forma a pagar “a fatura de Hitler” e a crise das dívidas soberanas (do Sul), os povos mediterrânicos sentem a maior legitimidade para criticar os germanos através dessas confusas associações de ideias. 

Os três estereótipos mais comuns:

  • Nazis!
  • Os alemães são antipáticos, chauvinistas e não se preocupam com os seus visitantes e imigrantes
  • A culpa da crise económica na Europa do Sul é do governo alemão atual

Cypriots

Esta fotografia corre a imprensa do mundo inteiro (fomos buscá-la ao Sydney Herald!). No Chipre, bem como nos outros países mediterrânicos, manifestações que “nazificam” e diabolizam Angela Merkel são muito comuns pelas razões acima citadas

Três exemplos de como todos beneficiamos da inclusão dos alemães na nossa sociedade – contributos:

  • Na realidade, todos os fundos europeus de integração dos anos 80 e 90 eram maioritariamente ouro alemão, dos quais Portugal também beneficiou – e Portugal era um país pobre e marginal antes da entrada na U.E. em 1986. Ou seja, o nosso desenvolvimento deve-se em grande parte ao tesouro de Merkel.
  • Os alemães beneficiaram do perdão da dívida em 1953 também de uma Troika (EUA, França e Reino Unido). No entanto, são responsáveis pelo seu próprio “milagre alemão” devido a uma cultura e mentalidade “luterana” e racional que não se esgotou no crescimento económico, mas também na sua solidificação. Hoje é o braço mais forte do Eixo Franco-Alemão, que segura o projeto da construção europeia, para quem nela crê.
  • Culturalmente, a Alemanha sempre foi dos países mais profícuos. Casa do Romantismo (Goethe), do Expressionismo e de tantas outras correntes artísticas ao longo da História, também é o berço de muitas correntes filosóficas (Schopenhauer, Hegel, Nietzsche, Kant!) e de tanta música erudita (Beethoven, Schiller, Wagner, Bach…). A Escola de Nova Iorque, que se iniciou nos anos 40 e que integrou movimentos como a Pop Art,  o Expressionismo Abstrato e o Relativismo (Einstein) na ciência, era composta de refugiados ao nazismo, como podemos constatar na figura abaixo

O tríptico A emigração intelectual, de Kaufmann, representa a fértil geração alemã que se exilou nos E.U.A., refugiando-se do nazismo. Só no painel central temos, à frente, Albert Einstein e Erika Mann; atrás, Arnold Zweig, Klaus Mann, Ludwig Renn, Heinrich Mann, Paul Zucker, Otto Klemperer, William Stern e Ferdinand Bruckner. Mas também Fritz Lang, Thomas Mann e tantos outros… Também Kaufmann pertenceu a esta escola.

+ Fontes

Expresso: Henrique Monteiro opina sobre a legitimidade da Alemanha (novembro 2010)

Expresso: Clara Ferreira Alves “Racismo e futebolismo” (julho de 2010)

Público: “Milagre económico alemão teve ajuda de perdão de dívida”

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Martim Moniz plural, seguro e livre

Pedro

UMA FOTORREPORTAGEM OU UM PASSEIO

Porque a cidade é onde se move a sociedade plural, porque a cidade é onde nos devemos sentir seguros de que não seremos incomodados, livres para intervir na vida urbana, fui com o meu amigo João ao Martim Moniz (em Lisboa, entre a Almirante Reis e o Rossio), um exemplo de um espaço como tal. Fotorreportámos esta praça, outrora tão degradada. Eis uma pequena história e descrição do espaço:

Aquilo que antes era uma das zonas mais perigosas, o maior foco de prostituição e criminalidade, recebeu há poucos anos uma metamorfose extraordinária. Chineses, muitos chineses, indianos de etnias várias, africanos de todos os pontos de África e portugueses cá nascidos convivem em paz. Jovens que parecem tamil jogam softball, uma tailandesa vende no seu quiosque, avistamos um outro quiosque que se chama “A preta”. Na realidade, a praça é hoje uma grande esplanada com o privilegiado beijo do sol, encabeçada pelo castelo de S. Jorge – ao conjunto de quiosques chamam-lhe “Mercado de Fusão“. Melhor nome não podia ter. Duas crianças ciganas espantam-se com o enorme dragão colocado no meio da praça pela comunidade chinesa de Lisboa. Um homem português dentro de uma tendinha que evoca o Nepal põe música oriental. A Mouraria está perto e também o seu pequeno monumento ao fado, mas antes um grande edifício de apartamentos e estabelecimentos de todas as nacionalidades. Estamos em Lisboa, num espaço pluralíssimo. Sentimo-nos seguros e, é certo, vê-se, todos se sentem livres de partilhar a sua vida e cultura.

Assim é o Martim Moniz hoje, num panorama geral. Vamos entrar nos pormenores, captados pela máquina do João Motta Guedes

fotografia

Eis o enorme dragão da comunidade chinesa…

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…inserido numa Lisboa que não deixa de ser portuguesa. O vaso de Alberto Caeiro (“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia”) sustenta o exótico junco oriental: duas culturas abraçam-se. Um velho descansa num banco, fazendo o enquadramento típico da rua lisboeta.

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De cotovelos sobre o balcão, trabalhando descontraidamente, os quiosques são um espaço de convívio intercultural. Ao longo destes bares / restaurantes, uma exposição de fotografia etnográfica de Joel Santos.

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A tenda donde sai a música oriental. Vamos agora entrar no casario do Martim Moniz…

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Uma casa portuguesa, com certeza? Nestas duas fachadas encontramos caracteres chineses, caixas de “rice noodles” e um deus hindu.

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Um casal de chineses com o seu filho sobe as Escadinhas da Saúde, onde a tradição do desmazelo se mantém. 

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O monumento ao fado faz-nos voltar à realidade: estamos em Lisboa e chegámos à Mouraria, o fim do nosso passeio. Esperamos que também vocês possam vir a fazer este percurso multicultural por Lisboa!

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18/03/2013

Liberdade e segurança num poema singular

Carolina

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100º Post!
 
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Um gato vadio

na noite escura

De que tem medo?

O que procura?

O que procura?

 

Um cavalo negro,

de dia à solta.

Um dia emigro?

Será que volta?

Será que volta?

 

Morangos bravos,

Crescem sem regra…

Será que são cravos?

Quem me alegra?

Quem me alegra?

 

Salamandra fria,

Salamandra quente…

Quem diria que um dia

Cá estaria tanta gente?

Quem diria?

 

Baloiço de corda,

Baloiço de pneu.

Quem se recorda

daquilo que não foi seu?

 

Caroço de ameixa,

Na boca derrete.

Não sei quem deixa,

Não sei eu de quem decrete.

 

Minha Loucura,

Meu Fingimento,

Minha Brancura

Meu Arlequim sonolento.

 

Em ti segura,

Em ti sou vento,

Minha amargura

não poder ir contra o tempo.

 

É liberdade,

É cama fria,

É a saudade,

Ao passar de cada dia.

 

Uma matilha,

Uma vara,

Uma quadrilha,

Ser um e não ter cara.

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